Quanta Mudança
por Leonardo Ferraz
Meu pai entrou em casa, ele havia acabado de voltar do trabalho estava muito cabisbaixo e foi direto ao banheiro tomar seu banho. É verdade que essa atitude não era normal, geralmente falaria comigo e meu irmão depois de dar um beijo na mamãe, mas nós nem imaginávamos o que estava por vir.
Já na manhã seguinte, com humor renovado, ele descia cantarolando uma bossa - esse sim era meu pai - feliz, alegre e aquele sorriso de que tudo vai ser perfeito. Mamãe resolveu perguntar o porquê da tristeza de ontem à noite e ele rindo respondeu que não foi nada, só um problema na empresa que em breve se resolve, disse ate para ela financiar aquele carro novo para eles inaugurarem na sexta à noite curtindo um barzinho, ela acenou com a cabeça positivamente. Fomos à concessionária, compramos um lindo carro vermelho e mamãe ria quando experimentava, até tomamos um sorvete depois, definitivamente era uma tarde perfeita.
Mas algo aconteceu, papai novamente chegou triste e dessa vez estava furioso, ao celular gritava e bufava de raiva. Mamãe tentava acalma-lo, mas não adiantava. Ele disse que houve um tsunami na bolsa americana, não entendi nada. Na TV o presidente falou que aqui chegaria como “marolinha”, mas papai não acreditou e eu continuei sem entender. Todavia quando ele veio a mim e disse que minha mesada iria acabar, não pude acreditar, minhas notas estavam boas e esse era nosso acordo, custei acreditar que o papai traiu nosso pacto financeiro, dizia que foi pela compra do carro, por causa da inflação estava subindo. Entretanto eu não me importava. Subi as escadas gritando e fui dormir, afinal não era culpa minha.
Amanheceu quando acordei com a mamãe cutucando minhas pernas, sabia que era mau sinal, significava que ela estava atrasada para alguma coisa. Mas o quê? A resposta não demorou, ela iria atrás de emprego, nunca tinha visto ela se interessar por trabalho antes, geralmente estava na cama vendo televisão ou em frente ao computador tomando um tal “tarja preta”, quanta mudança. Papai saía também, nos deixou na escola e correu para o trabalho, alguma coisa sobre uma reunião e corte de gastos.
Na escola, meus amigos e eu comentávamos o assunto, ficaram abismados com o fato de minha mesada ter acabado sem motivo. Mas fazer o quê? Só o que me resta é esperar a “marolinha” esvair-se, meu pai voltar a cantarolar e mamãe não tão cedo voltar a me acordar.